Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

À quoi ça sert l'amour

Passei muito tempo sem postar, por causa do cotidiano e também, reconheço, a falta de talento em escrever bem.
Pelo menos sei reconhecer quando algo é bem escrito, quando escrevem bem ou não, por isso tenho a certeza que não sou um excelente escritor. Com muito esforço eu chego as vezes a escrever coisas medianas, ou até boas (raramente).
Mas tenho grande carinho por esse blog, apesar de saber que quase sempre quem o visita sou eu mesmo. Porém, como de vez em quando alguém, por um acaso do destino passa por aqui, vou tentar manter uma regularidade de postar algo novo pelo menos uma vez na semana. Porém nem sempre será textos, vou passar a colocar vídeos e até fotografias, pois sou uma pessoa que acredita que imagens comunicam tanto quanto palavras.
Essa semana vou postar um vídeo, um curta etragem muito legal, feito a partir de uma música de Edit Piaf (cantora francesa que gosto muito).
A quem passar por aqui, assistam e espero que curtam!
Abraços.

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

VINDO DE ESPÍRITO, a Lívia *


Eu olho uma criança qualquer
a uma infância mutuada em espelhos sorrisos e neves a dentadas.
Eu olho uma criança
retrocedo mil anos antes em mim.
Antes da pedra e a areia que a compôs,
antes da areia os flocos de vidas granuladas.
Antes do átomo autonômo solitário,
antes da molécula e o universo vetado em negro.
Antes do próprio silêncio observador.
As crianças das quais possuem meus olhos,
são risonhas e ribeirinhas de brincadeiras surpresas e olhos lunares.
É um ser além da alma,
que se escondem nas fraudas ou ninam nos seios das mães.
São crianças essas que preenchem por inteiro o papel da alma
e rascunha meu parágrafo, coração.

Aldemir Felix






* Esse poema foi escrito por um amigo meu (ex-aluno), para minha filha.

Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

A vida continua

No ano passado fui ao enterro do pai de um amigo meu. Estava eu chegando ao cemitério de Santo Amaro e sempre, nessas horas me pergunto, qual a melhor forma de se comportar em um enterro?...
Fui à vários no ano passado e quase sempre acontecem particularidades, algumas até bem folclóricas, que parecem fazer parte do contexto desse momento.
Pois bem, o pai desse meu amigo já era viúvo a mais de 2 anos, sua ex-esposa morreu de infarto, coincidência ou não, ele também.
Quando ainda vivo "o viúvo", antes mesmo de se tornar viúvo, o coroa tinha outra família extra oficial. Todos da família sabiam que ele tinha outra mulher, inclusive a esposaa oficial, porém ninguém falava abertamente sobre esse assunto.
Lembro que às vezes que visitava meu amigo, em dias de sábado ou domingo, perguntava por seu pai (o velho - não sei por quê? tinha muita simpatia muito grande por mim), mas geralemnte ele não se encontrava. Vinha sempre a mesma resposta:
- “Esta trabalhando!”
Até em feriados como 7 de setembro, São João, sexta-feira santa, entre outros, o trabalhador incansável estava na labuta. Claro que meu amigo, já havia me falado o motivo das ausências do pai, e, todos sabiam que eu sabia. Porém, a resposta continuava sendo a mesma: - "Esta trabalahndo!".
O fato, é que as poucas vezes que o encontrei em casa, mas sempre que isso acontecia era recebido por ele com muita simpatia. O velho gostava de conversar comigo e aproveitava a oportunidade e perguntava: - “Seu J... o Senhor não vai trabalhar hoje não?”... Ele apresentava um largo sorriso, atestando que sabia do que perguntava e respondia:
- “Não hoje estou de folga.”
Aproveitando a oportunidade e a receptividade, acrescentava o comentário:
- “Cuidado... o Senhor trabalha muito, pode pegar uma estafa ou até enfarta!”
O coroa nada respondia, apenas continuava a sorrir, balando a cabeça como se confirmasse o que tinha dito.
Mas depois da morte de sua compnaheira, é que o homem não parava mais em sua residência, encontrá-lo em sua casa (a tida como oficial), passou a ser uma raridade maior ainda. Passou a trabalhar, quase que em sitema de 24h. Acredito até que foi pela carga horária elevada de “trabalho”, o motivo da seu empacotamento. Não tenho certeza, mas ele acho que o trabalho em dia e noite, acabou contribuindo para o velho enfarta... igual ao que havia previsto.
Pois bem, cheguei ao velório por volta das 10h, o enterro estava marcado para as 11h. Procurei meu amigo e dei um forte abraço nele. Falei rapidamente com os outros presentes e acabei por reencontrar outros amigos e amigas, que a tempos não via a tempo.
Naturalemnte nos reunimos para trocar idéias e relembrar histórias passadas, uma amigo nos relatou a história de seu avô, que tinha o desejo de que depois de sua morte, queria que os seus restos fossem doados para pesquisa, porém só depois de anos do seu enterro eles levaram os ossos, dentro de sacos de lixos, num ônibus, para o departamento de medicina da UFPE.
Por informação do meu amigo e indicação do mesmo, fico sabendo que a atual patroa estar presente, na verdade a viúva.
Mantinhamos uma discreta conversa em frente ao velório, até que uma mulher entra no espaço e para na cabeceira do caixão por alguns segundos. Olha o defunto com tristeza nos olhos, e, aos poucos, começa a chora se perguntando “o porquê?”... "porque senhor o levaste?". Não era um choro alarmante, nem tão pouco uma fala em alto tom, porém todos a olhavam e se entreolhavam, tentando entender a cena. A viúva era a mais desconfiada... “Será que era uma outra mulher do defunto, que justamente aparecia no enterro do defunto?”... Acho que essa pergunta passava pela cabeça de muitos presentes, inclusive da minha. O clima já estava começando a ficar estranho, até que uma outra mulher, que passava em frente ao velório, vendo a cena entrou discretamente e se dirigiu a que capideira que estava a chora e disse:
- “Ei... não é esse não... o corpo está ali na outra sala.”
A mulher então parou de chorar, apenas baixou a cabeça enxugando as lágrimas e acompanhou a amiga. As duas saíram do velório sobre o olhar de todos presentes e se dirigiram para o velório ao lado. Tudo estava esclarecido... foi um erro de defunto. Fiquei apenas com uma dúvida???... Se ela não conhecia o defunto porque estava chorando por ele?... Não sei... quem sabe realmente não erram carpideiras (mulheres que são contratas para chorar em enterros), como não conheciam o defunto, erraram o caminho e despediçou lágrimas, o pai de meu amigo agradece, só espero que as lágrimas não tenham feito falta para o outro morto.
Passado o incidente tudo transcorreu dentro do esperado, lembranças de momentos engraçados, saudade, choro, preces e sorrisos discretos. As 11h10 minutos fecharam o caixão e acompanhamos o defunto para sua morada final.
Após colocarem o caixão no sepulcro, os funcionários do cemitério iniciaram o trabalho de lacrar o sepulcro e ao final perguntaram ao meu amigo o que escrever na lapide:
- “Escreva o nome dele, a data de nascimento e a data da morte”.
Executando o que foi decretado, eins que surge uma dúvida! Qual a data de nascimento do defunto?
- “Escreva o mês de maio e o ano de 1941” - informou meu amigo.
A pessoa já havia escrito quando a viúva, até em tão calada, protestou com lágrimas nos olhos:
- “Não... não é 1941... é 1942!”.
Pronto a dúvida se instalou, uns dizima 41 e outros iam com a vipuva no 42... Me aproximei do meu amigo e disse:
- "Deixa 42, já morreu mesmo... isso não vai ter importância agora".
Ele refletiu e disse ao funcionário:
- “A esposa dele sabe mais que eu, coloca 1942.”
O coveiro já mudava a data, quando ele discretamente voltou-se para mim e falou:
- “Depois de morto... ainda rejuvenesceu um ano... mais deixa pra lá”.
Aproveitei o momento, me despedi de todos e segui meu caminho pensando o quanto é interessante esse ritual de despedida na morte, mesmo sendo marcado por uma partida - a do morto, muitos encontros estão acontecendo e às pessoas ainda conseguem ri...
A vida continua.

Terça-feira, 22 de Julho de 2008

Imagem e palavra

Há muito tempo que as imagens me seduzem e por elas vislumbro as palavras e as guardo na minha vida.
As minhas vivências, o meu cotidiano, ficam fixados na minha memória como filmes ou fotografias e elas me fazem viajar, às vezes por caminhos tortuosos e contrários ao que desejo, é verdade, porém mudam meu destino a cada instante. Aos poucos as imagens passaram a me remeter a palavras, palavras que passaram a me pertencer e me constituir enquanto sujeito do mundo e no mundo. Palavras que revelam amores, sentimentos, emoção e vida.
No meu percurso pela estrada da vida me deparei com muitas imagens/palavras, que guardo na lembrança, elas nem sempre são alegres e nem sempre triste, mas que me toranam o ser que sou.
Uma imagem às vezes se parece com outras, porém dependendo do contexto ao qual se vê, acaba por nos revelar palavras diferentes, sentimentos diferentes.
Como exemplo, guardo na memória a imagem do meu pai caído no chão envolto em sangue e pela primeira vez a palavra “morte” ficou estampada na minha vida. No enterro da minha avó, mesmo diante da morte, registrei a palavra “saudade” mais presente. No enterro de um ex-aluno, um jovem de 19 anos, as palavras mais gritante era o “por quê?”. Porém, em todas as imagens a palavra "tristeza" era uma companhia constante.
Aliás, foi num momento de profunda tristeza que se deu a imagem do “reencontro” com Fabíola (hoje minha esposa). Estava no meio de um turbilhão e envolto com imagens que me traziam as palavras “agonia”, “medo”, “solidão” e “desespero”. Com o reaparecimento de Fabíola as palavras “carinho”, “atenção”, “companheirismo”, “compreensão”, “apoio” e “amor”, iluminou minha existência. Com chegada de minha filha, várias outras plavras foram sendo tatuadas no meu ser, por causa da sua sigular imagem, que nos aflorou sentimentos sublimes, que passou pelo “desejo”, “alegria”, “felicidade”, “afeto”, “cuidado”, “pai”, “mãe” e “amor”. No convívio com minha pequenina outras imagens/palavras estão chegando ou voltando com o tempo e se instalando para sempre, como: “brincadeira”, “simplicidade”, “aprendizado” e “entusiasmo”.
No dia a dia também somos bombardeados por imagens que nos incomodam, e, mesmo que não queiramos nos fazem reter palavras indesejadas, como: “guerra”, “conflito”, “maldade”, “terror”, “raiva”, “indignação”, "injustiça" e “descaso”. Ficamos expostos e sujeitos a esse bombardeio desenfreado, onde palavras são inventadas e passam a ser registradas mesmo a contragosto em nossas mentes, como efeito de uma tal de “globalização” e desse "mundo pós-moderno”, que separa as pessoas, instalando a "desconfiança" e a "paránoia".
Prefiro remeter as imagens/palavras da minha infância. Há que "saudade" dos jogos de bola em dia de chuva, a palavra de ordem era “diversão”. Como era gostoso comer bolo recém saido do forno com quárana, que “satisfação” e ir ao cinema de graça com os amigos, pois o pai de um deles era jornalista e conseguia ingressos grátis, era um “privilegio” para poucos. Uma das imagens que guardo com mais "carinho" da minha infância, é a de meu pai sentando na cama com os 4 filhos lendo historinhas da bíblia em quadrinhos, essa imagem me remete as palavras “família” e “ternura”. Essa lembrança muito contribuiu para que eu me apaixonasse por livros.
Hoje com minha filha, quando chega a hora de dormir, fazemos todo um ritual. Eu ou minha esposa damos banho nela, colocamos seu pijama, oferecemos o mingau, escovamos seus dentinhos e a colocamos em sua cama. Ela então pede um de seus livrinhos, abrimos o livro e lemos, ou inventamos, uma historinha para ela, fazemos uma pequena prece para "papai do céu" e deitamos ao seu lado até ela pegar no sono. Depois um suave beijo na sua cabeça e vamos para nossa cama. Esse ritual marca mais forte as palavras: "amor" e "família" para mim e me fazem pensar que minha filha estar se contituindo por imagens e palavras, assim como eu fui e desejo que as palavras sejam sempre "suaves", "doces" e "belas" em sua vida.

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Pequena história


Quando minha filha nasceu, minha avó, uma senhora forte e bem humorada esteve na maternidade para nos visitar.
Dona Cacilda (assim que se chamava), havia dado à luz, a 19 filhos, desses, 11 cregaram a fase adulta e 8 morreram ainda em tenra idade.
Minha querida anciã entrou no quarto da maternidade a passos lentos por causa do peso da idade ou, talvez, porque nessa idade nada mais precissa de pressa. Com o ar sereno, que lhe era característico, carregava no semblante as marcas que o tempo lhe esculpiu, nem sempre com suavidade.
Acomodou-se na poltrono, ao lado da cama em que se encontrava minha esposa, e esperou que eu conduzisse minha pequenina ao seu colo. Com o cuidado e o carinho de alguém que muito amou na vida, acolheu sua pequena neta nos braços, pousou o seu meigo e suave olhar sobre ela e a abençoando com um belo e demorado sorisso. Ficou alguns minutos naquele quadro de beleza imcomparavel para minha lembrança e depois de algum tempo ergueu os olhos em nossa direção, espalhou um delicioso olhar a todos que se encontrava no quarto e com seu habitual bom humor disse.

- “Só faltam 18!”

Todos rimos ao mesmo instate e minha filha foi abençoada.

Para minha avó

Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

É assim que começa


Práias em ritual Pankararu
(Retirado do site: www.ideti.org.br/projetos/rito/hist_rit.html)


No ano de 2004, participei como estagiário de uma pesquisa com índios Pankararu. Foi uma experiência muito rica, onde aprendi e convivi com pessoas muito legais.

Nesse período tive oportunidade de realizar um pequeno, porém lindo trabalho teatral com um grupo de jovens pankararu. Montamos uma peça que foi apresentada com sucesso em todas as aldeias da reserva e passei a conhecer um pouco da cultura dessa comunidade, tendo a oportunidade de participar de rituais e festejos desse povo. Nesse período vivenciei muitas histórias interessantes, as vezes até engraçadas, como o dia em me perdi nas terras pankararu a noite, mas, por sorte, com a ajuda de alguns índios da reserva, consegui encontrar a estrada de volta e localizar os colegas de trabalho. Presenciei, também histórias tristes, como o dia em que chegamos a uma aldeia logo depois de ter ocorrido um assassinato e o clima não estava nada legal. Porém, foram mais experiências positivas do que negativas.

Em um dos dias, em que estava circulando nas aldeias entrevistado moradores, tive a oportunidade de conhecer um velho, antiga liderança da comunidade, chamada Seu Luiz Caboclo. Foi uma das entrevistas mais ricas e agradáveis que realizei. Geralmente passava cerca se 25 a 35 minutos entrevistando um índio, mas com Seu Luiz a conversa durou além do tempo estimado, foram cerca de 2 horas de um agradável diálogo, onde escutei muitas histórias aliadas a comentários de uma sabedoria que só os velhos conseguem ter.
O ancião me falou da época em que os índios da sua tribo ainda andavam nus, na área pankararu. Me falou sobre os rituais, o sentido comunitário e coletivo da preparação das comidas e bebidas utilizadas nesses eventos. Falou sobre os heróis míticos, os praias, o tóre, as cantigas populares na língua pankararu, revelando que ele desde jovem tinha o dom dos mestres que entoam os cantos. Falou da chagada do homem dos centros urbanos e no que isso interferiu na forma em que os índios conviviam: “Mas quando a gente notou as mudanças, já era terde... não tinha mais como voltar...”, me disse o velho índio. Em determinado momento da conversa ele se levantou da cadeira e, com as dificuldades e limitações da idade me convidou a acompanhá-lo, abriu a porta do quarto da sua casa e olhando para dentro do quarto observei varias vestimentas de práias penduradas e ele então me informou que ele era um dos guardiões dos encantados, era o responsável para guarda as vestimentas dos que recebem os heróis míticos. Fiquei me perguntando porque não estava com uma maquina fotográfica naquela hora, perdi a oportunidade de registro visual, mas fiquei impactado com tudo. Ainda estava sob o efeito e encanto do momento quando Seu Luiz me diz: “Venha cá meu filho... me siga por favor”.
Sem nada dizer o acompanhei e quando cheguei ao quintal, presenciei uma das mais belas cenas da minha convivência com os pankararu. No amplo quintal cercado por arvores, brincavam seis crianças, todas entre 4 e 6 anos. Duas delas carregavam um chocalho nas mãos e estavam cobertas com uma saca de nylon, que tinham dos furos na altura dos olhos (essas sacas grandes que vemos com cereais em mercearias). As outras crianças iam atrás das duas da frente, que balançavam seus chocalhos e seguiam iguais no mesmo ritmo batendo andando e batendo o pé direito firme no chão, todas emitiam sons imitando os cantos e entoadas pankararu. Fiquei ali maravilhado e por alguns minutos nada foi dito nem por mim, nem pelo velho índio, apenas admirávamos a cena. Depois de alguns minutos o silêncio foi cortado apenas por uma frase do Seu Luiz, que apontando para as crianças disse: “É assim que começa!”
Conversei mais alguns minutos com o velhinho e me despedi, fiquei de retorna lá para conversamos mais em outra oportunidade, mas, não sei porque nunca retornei, guardando na memória esse belo quadro e a frase do ancião.

“É assim que começa!”

Terça-feira, 8 de Abril de 2008

O ridículo da felicidade


Existem pequenas coisas que passamos a olhar de forma diferente quando nos tornamos adultos. Na verdade, não percebi quando é que deixei de dar importância para as brincadeiras infantis. Talvez tenha acontecido por causa do processo forçado de amadurecimento passamos (eu e meus irmão) depois da morte do meu pai, pois mesmo crianças passaram a nos cobrar atitudes de adultos, diziam que era para não aumentar o sofrimento de nossa mãe. Isso me fez olhar para tudo com muita seriedade. Não que não gostasse de brincar, mas passei a ter medo e cuidado, para que os outros não me achassem ridículo. A partir daí a seriedade passou a fazer parte da minha vida.

O tempo passou, passou e aí minha filha nasceu... Na convivência cotidiana com ela, passei a sentir a necessidade de procurar uma comunicação com aquele pequeno ser. Lembro que pegava ela nos braços e quando ela fazia algum som, eu logo repetia e ela abria o sorriso. Aos poucos comecei a perceber como é importante ser abestalhado, as crianças adoram os abestalhados. Se fazia careta para uma criança na rua ela logo se aproximava de mim e quando via estava conversando com ela, sobre cachorrinhos, briancadeiras ou nem conversavamos, simplismente brincavamos.

Com minha filha, aos poucos, fui desenvolvendo e aperfeiçoando as técnicas de comunicação a base das brincadeiras infantis: fazer caretas, corre atrás do outro, se esconder e outras coisas. Fui precebendo que o ato de brincar passou a fazer parte da minha vida como algo essêncial. Redescobrir o quanto é valorosa as brincadeiras para a nossa saúde.

Às vezes estou preocupado com as coisas do dia-a-dia, as contas a pagar, os problemas no trabalho, a situação política do Brasil, entre outras coisas... quando de repente escuto: - “Vem painho, corre vem me pegar”... É o código para uma sessão de terapia com a pequenina, que logo após falar sai correndo desenfreada e se joga na cama, eu corro atrás dela, fazendo de conta que não a alcanço e me jogo ao seu lado na cama, iniciando uma sessão de beijos nas costas, na barriga, no pescoço, nos braços e nas axilas. As gargalhadas ressoam por nosso apartamento e contagia a casa com novas energias. Nesse momento já não me importo com os problemas.

Descobrir nesse processo a maravilhosa terapeuta que é minha pequenina, que todos os dias, com diferentes técnicas que incluem beijos, cosquinhas, risos e brincadeiras diversas, participo de uma agradável sessão de relaxamento e vou reaprendendo novamente o prazer da alegria sem compromisso. O brincar, o sorriso e as besteiras, passaram ter uma importância grande na minha vida. Quando passamos (eu e minha filha) correndo e gritando pelos cômodos do apartamento, minha esposa fica a nos olhar e percebo o brilho nos seus olhos. Os risos e as brincadeiras a contagiam e quando menos esperamos, ela se junta a nós. Nesse momento a brincadeira fica completa. É a família toda rolando pelo chão, ou em cima da cama, ao som de muitas gargalhadas e beijos. Parecemos 3 loucos de alegria.

Aos poucos, essa loucura vem saindo do espaço interno de nosso lar e tomando outros espaços. Brincamos de se esconder ou saímos correndo um atrás do outro, em lojas, supermercados, shoppings e restaurantes. Vejo quando a pequena entrar no meio das prateleiras de roupas ou vai atrás de algum balcão e grita: “- Vem painho, vem me procura”... Eu, sempre atento aos seus movimentos, faço que não a vejo, e passo a procura-la, mesmo sabendo onde ela estar. Quando chego próximo a ela, apareço em sua frente e grito: “- Achei!!!”... Ela, balança os braços de forma bem expressiva e cai na gargalhada. Geralmente as pessoas nos olham com sorrisos nos lábios e assim vamos espalhando o vírus da alegria e assim sinto que mais um está contagiado.

Infelizmente, minha esposa ainda não aderiu a terapia fora de casa, mas acredito que ela chega lá. Ela ainda guarda o medo do que as pessoas vão pensar. Sinto-me livre ao me entregar às brincadeiras, aos risos e passei a observa, que as pessoas no inicio podem até estranhar um adulto fazendo essas coisas, mas percebo que todas olham e sorri, as vezes até fazem algum comentário como: "- Ela é danada, não é?" Nessa hora suas feições ficam mais leve, mais comunicativas e simpáticas.


Um amigo, que mora na Itália, palhaço de profissão, aplicava uma capacitação sobre o “clow” a um grupo de jovens e professores aqui no Recife. Em determinado momento na formação ele disse: - “As pessoas têm medo de serem ridículas, elas não querem ser frágeis e passam a criar uma imagem que distancia o outro”... Acredito que seja realemnte isso, acho que nesses momentos com minha filha não tenho medo de ser ridículo aos olhos dos outros e com isso, passei a me comunicar melhor e sinto cada vez mais próximo a minha filha e não me sinto ridículo por isso. Me sinto feliz.