No ano passado fui ao enterro do pai de um amigo meu. Estava eu chegando ao cemitério de Santo Amaro e sempre, nessas horas me pergunto, qual a melhor forma de se comportar em um enterro?...
Fui à vários no ano passado e quase sempre acontecem particularidades, algumas até bem folclóricas, que parecem fazer parte do contexto desse momento.
Pois bem, o pai desse meu amigo já era viúvo a mais de 2 anos, sua ex-esposa morreu de infarto, coincidência ou não, ele também.
Quando ainda vivo "o viúvo", antes mesmo de se tornar viúvo, o coroa tinha outra família extra oficial. Todos da família sabiam que ele tinha outra mulher, inclusive a esposaa oficial, porém ninguém falava abertamente sobre esse assunto.
Lembro que às vezes que visitava meu amigo, em dias de sábado ou domingo, perguntava por seu pai (o velho - não sei por quê? tinha muita simpatia muito grande por mim), mas geralemnte ele não se encontrava. Vinha sempre a mesma resposta:
- “Esta trabalhando!”
Até em feriados como 7 de setembro, São João, sexta-feira santa, entre outros, o trabalhador incansável estava na labuta. Claro que meu amigo, já havia me falado o motivo das ausências do pai, e, todos sabiam que eu sabia. Porém, a resposta continuava sendo a mesma: - "Esta trabalahndo!".
O fato, é que as poucas vezes que o encontrei em casa, mas sempre que isso acontecia era recebido por ele com muita simpatia. O velho gostava de conversar comigo e aproveitava a oportunidade e perguntava: - “Seu J... o Senhor não vai trabalhar hoje não?”... Ele apresentava um largo sorriso, atestando que sabia do que perguntava e respondia:
- “Não hoje estou de folga.”
Aproveitando a oportunidade e a receptividade, acrescentava o comentário:
- “Cuidado... o Senhor trabalha muito, pode pegar uma estafa ou até enfarta!”
O coroa nada respondia, apenas continuava a sorrir, balando a cabeça como se confirmasse o que tinha dito.
Mas depois da morte de sua compnaheira, é que o homem não parava mais em sua residência, encontrá-lo em sua casa (a tida como oficial), passou a ser uma raridade maior ainda. Passou a trabalhar, quase que em sitema de 24h. Acredito até que foi pela carga horária elevada de “trabalho”, o motivo da seu empacotamento. Não tenho certeza, mas ele acho que o trabalho em dia e noite, acabou contribuindo para o velho enfarta... igual ao que havia previsto.
Pois bem, cheguei ao velório por volta das 10h, o enterro estava marcado para as 11h. Procurei meu amigo e dei um forte abraço nele. Falei rapidamente com os outros presentes e acabei por reencontrar outros amigos e amigas, que a tempos não via a tempo.
Naturalemnte nos reunimos para trocar idéias e relembrar histórias passadas, uma amigo nos relatou a história de seu avô, que tinha o desejo de que depois de sua morte, queria que os seus restos fossem doados para pesquisa, porém só depois de anos do seu enterro eles levaram os ossos, dentro de sacos de lixos, num ônibus, para o departamento de medicina da UFPE.
Por informação do meu amigo e indicação do mesmo, fico sabendo que a atual patroa estar presente, na verdade a viúva.
Mantinhamos uma discreta conversa em frente ao velório, até que uma mulher entra no espaço e para na cabeceira do caixão por alguns segundos. Olha o defunto com tristeza nos olhos, e, aos poucos, começa a chora se perguntando “o porquê?”... "porque senhor o levaste?". Não era um choro alarmante, nem tão pouco uma fala em alto tom, porém todos a olhavam e se entreolhavam, tentando entender a cena. A viúva era a mais desconfiada... “Será que era uma outra mulher do defunto, que justamente aparecia no enterro do defunto?”... Acho que essa pergunta passava pela cabeça de muitos presentes, inclusive da minha. O clima já estava começando a ficar estranho, até que uma outra mulher, que passava em frente ao velório, vendo a cena entrou discretamente e se dirigiu a que capideira que estava a chora e disse:
- “Ei... não é esse não... o corpo está ali na outra sala.”
A mulher então parou de chorar, apenas baixou a cabeça enxugando as lágrimas e acompanhou a amiga. As duas saíram do velório sobre o olhar de todos presentes e se dirigiram para o velório ao lado. Tudo estava esclarecido... foi um erro de defunto. Fiquei apenas com uma dúvida???... Se ela não conhecia o defunto porque estava chorando por ele?... Não sei... quem sabe realmente não erram carpideiras (mulheres que são contratas para chorar em enterros), como não conheciam o defunto, erraram o caminho e despediçou lágrimas, o pai de meu amigo agradece, só espero que as lágrimas não tenham feito falta para o outro morto.
Passado o incidente tudo transcorreu dentro do esperado, lembranças de momentos engraçados, saudade, choro, preces e sorrisos discretos. As 11h10 minutos fecharam o caixão e acompanhamos o defunto para sua morada final.
Após colocarem o caixão no sepulcro, os funcionários do cemitério iniciaram o trabalho de lacrar o sepulcro e ao final perguntaram ao meu amigo o que escrever na lapide:
- “Escreva o nome dele, a data de nascimento e a data da morte”.
Executando o que foi decretado, eins que surge uma dúvida! Qual a data de nascimento do defunto?
- “Escreva o mês de maio e o ano de 1941” - informou meu amigo.
A pessoa já havia escrito quando a viúva, até em tão calada, protestou com lágrimas nos olhos:
- “Não... não é 1941... é 1942!”.
Pronto a dúvida se instalou, uns dizima 41 e outros iam com a vipuva no 42... Me aproximei do meu amigo e disse:
- "Deixa 42, já morreu mesmo... isso não vai ter importância agora".
Ele refletiu e disse ao funcionário:
- “A esposa dele sabe mais que eu, coloca 1942.”
O coveiro já mudava a data, quando ele discretamente voltou-se para mim e falou:
- “Depois de morto... ainda rejuvenesceu um ano... mais deixa pra lá”.
Aproveitei o momento, me despedi de todos e segui meu caminho pensando o quanto é interessante esse ritual de despedida na morte, mesmo sendo marcado por uma partida - a do morto, muitos encontros estão acontecendo e às pessoas ainda conseguem ri...
A vida continua.